A síndrome da padaria quente
Como acontece toda sexta-feira, estou na padaria, desfrutando do wi-fi. Hoje está particularmente quente aqui, e minha vontade é de sair correndo. Lembra um pouco a sensação dos meus tempos de publicidade, quando eu queria morrer no meio do dia. Uma combinação do ronco incessante da máquina do café expresso, a televisão ao fundo, alguém que grita de tempos em tempos (aqui é uma criança, na publicidade era o chefe) e a impossibilidade de ir embora antes de determinado horário. E, tal qual acontecia quando eu tinha um trabalho formal, eu acabo produzindo lindamente. O trabalho rende como eu nunca vi, não me desconcentro por nada.
Nessas horas eu lembro dos comentários que ouço quando alguém vai me visitar em casa. Olham para a varanda, o jardim florido, aquela brisa gostosa e dizem:
- Que lugar inspirador.
Eu concordo só para ser educada, ciente de que o problema sou eu, obviamente.
Escrito por Índigo às 15h29
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Livrinho pra criança
Cena real: estou de bobeira, na casa de uma amiga, quando Maria Flor se senta ao meu lado com um livro na mão. “Cinderela”.
- Eu vou ler pra você, tá? – ela diz.
“Uau”, penso eu. “Isso vai ser bom”. Maria Flor tem 7 anos e nem imagina que eu escrevo livros para crianças. Ela se acomoda entre as almofadas e abre na primeira página. Era uma vez... e por aí vai. Lê bem, respeitando pontuação e dando a entonação certinha. E eu pensando: “Meu Deus... quem escreve essas coisas?” Era desses livrinhos de 8 páginas, um resumo bem porco da história original.
De repente bate um pressentimento de que aquilo não ia acabar bem. Algo no estilo tosco e sem graça do texto, não sei... me deu um frio na barriga. Então eis que aparece a fada madrinha e diz para Cinderela que, ok, ela pode ir ao baile, mas teria de voltar antes da meia-noite. Viramos a página e Maria Flor continua a leitura. Vemos Cinderela e o Príncipe bailando.
- E eles dançaram a noite toda – ela lê e olha para a minha cara. – Hã? Mas ela não tinha de ir embora à meia-noite?
Minha vontade é de jogar o livro pela janela e pedir perdão em nome do mercado editorial. Ah, sim, e também que ela não desista de nós.
Escrito por Índigo às 15h45
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Como escrever para um escritor
Depois de ler “Liberdade”, do Jonathan Franzen, Índigo foi tomada por um desejo inédito: escrever para ele. Ela nunca escreveu para autor nenhum. A única outra autora que lhe despertou esse desejo foi Simone de Beauvoir, para quem ela não pode escrever, obviamente. Então ela fez questão de visitar o túmulo da Simone, no Père-Lachaise, e deixar uma florzinha para ela. Foi um pouco decepcionante, pois o cemitério fica debaixo de um viaduto, e a autora (a viva) tinha uma ideia bem mais romântica de como seria o encontro delas.
Agora há dias que ela está esboçando uma mensagem para mandar para Jonathan via facebook. Resolveu que não vai mandar email para não ficar frustrada com uma não-resposta. E por email ela se sentiria obrigada a escrever algo mais profundo. Pelo Face é mais pa-pum, mas mesmo sendo pa-pum ela não está encontrando uma maneira concisa de explicar o impacto do livro. Além do mais, fica pensando que ele deve receber trocentas mensagens assim por dia. Também tem pensado nas mensagens que ela própria recebe, de leitores que dizem que demoraram um ano para juntar coragem e lhe escrever. Por isso mesmo ela resolveu que vai escrever, só para saber como é a sensação.
Escrito por Índigo às 15h39
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Lista de desejos
Ando com vontade de:
1) Passar um pouco de fome e tentar viver exclusivamente de direitos autorais. Descobri uma cápsula chamada chlorela que poderia ajudar nesse sentido. Substitui uma refeição. Muito utilizada por astronautas.
2) Pintar uma parede.
3) Doar um sapato laranja de salto plataforma que só consegui usar duas vezes, mas pelo qual eu tenho apego.
4) Mudar a cara desse blog.
5) Comer tapioca.
Acho que vou começar pela tapioca.
Escrito por Índigo às 13h59
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Esquizo para o bem
Essa semana, excepcionalmente, ela trocou a sexta pela quinta para que seus compromissos caíssem todos num único dia da semana. Pois agora o plano é ficar em casa, concentrada e escrevendo. É o que ela tem feito e, sim, está sendo bom para ela. Principalmente porque agora ela inventou de trabalhar com metas. Antes sua escrita era bem soltinha, ela ia escrevendo, escrevendo, até que se dava por satisfeita. Agora ela estabeleceu que numa “sessão de escrita” ela deve desenvolver a história do ponto “C” ao “D”, e enquanto não chegar no ponto “D” ela não tem autorização para parar. Assim ela criou uma chefe para si, para botar ordem na criação e fazer com que essa escrita toda tenha algum resultado. Pois se deixar a coisa por sua conta ela sai escrevendo por escrever e depois tem de voltar e cortar metade do texto. Com a nova chefe o processo tem ficado mais eficiente. O bom mesmo era que a chefe a obrigasse a bater cartão e apresentar relatórios mensais. Quem sabe, com o tempo...
Escrito por Índigo às 18h50
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A média
Ontem à noite ela foi acometida por um ataque de preguiça, virou-se para o marido e perguntou:
“De um a dez, qual a sua vontade de viajar no ano novo?”
Ele baixou o livro, olhou para ela e disse que não ia responder porque sua resposta influenciaria a dela. Então cada um escreveu um número num papelzinho e abriram ao mesmo tempo. Tiraram a média. O resultado é que, juntando a vontade dos dois, deu energia suficiente para saírem de casa. Dessa vez foi por pouco. Mas ficou resolvido que vão viajar na sexta-feira, afinal de contas.
“Depois a gente passa o resto do ano em casa, pode ser?”
“Combinado.”
Escrito por Índigo às 16h13
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Resoluções para 2012
Hoje a escritora está em São Paulo e só por isso ela conseguiu postar no seu blog, e ler os comentários pendentes. Sobre 2012, ela resolveu o seguinte; 1) Que ela não vai mais sofrer por causa de conexão de internet. Quando tem conexão, lindo. Ela se conecta. Quando não tem ela simplesmente não se conecta. Simples assim. Total zen. 2) O blog será atualizado às sextas-feiras, quando ela passa por uma padaria no Embu que tem Wi-fi. Assim o blog não morre, ela não sofre e os leitores não ficam entrando desnecessariamente. Claro que caso ela vá para São Paulo numa terça, por exemplo, ela pode postar um textinho extra, de brinde especial. 3) Ela não vai fazer uma obra, com pedreiro, só para escrever ficção na varanda. A verdade é que nos dias em que a cadeira esteve posicionada no tal canto especial, ela não conseguiu se sentar ali para escrever. Continuou escrevendo no escritório, e seu texto, por um passe de mágica, deslanchou. Enquanto a cadeira e a mesa juntavam pó e cocô de passarinho ela escrevia adoidado. Então de certo modo o movimento não foi em vão. Muito pelo contrário, foi necessário.
Escrito por Índigo às 17h50
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Por enquanto uma cadeira e uma mesa
Agora, na ponta da varanda da sua casa, numa área que é um grande vazio coberto, tem uma mesa e uma cadeira. Ninguém se aproxima daquela mesa, ninguém senta naquela cadeira. A composição tem um aspecto fantasmagórico. A própria escritora começa a achar que tem alguém sentado ali. O marido por enquanto não se atreveu a perguntar por que aquela mesa e aquela cadeira foram colocadas ali. Ele respeita essas coisas. A explicação é que recentemente ela começou a achar que deveria criar dois ambientes de escrita. Um para as traduções e coisas que ela chama de “gerenciamento de carreira” e outro para a escrita em si. Inclusive, ela trabalharia com dois computadores diferentes. No escritório o velho laptop conectado (teoricamente) à internet. Lá fora o notebook avesso ao mundo. O plano só não foi colocado em prática por fatores climáticos. Chove, faz frio, venta, e embora essa parte da varanda seja coberta, seria um pouco desconfortável. No entanto, sua escrita não pode depender dos dias ensolarados. Já basta todas as outras limitações. Uma solução seria instalar paredes de vidro na varanda, criando uma redoma para a boneca poder escrever suas obras de ficção.
Escrito por Índigo às 13h05
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