A função de um gato
Tem certas ocasiões em que eu trocaria um gato por um cachorro num piscar de olhos. Quando você dorme sozinha numa casa enorme no meio do mato, no breu absoluto. Nessas horas eu quero estrangular a Valentina. Se ela fosse um cachorro ficaria atenta a barulhos e movimentações suspeitas. Caso visse alguma coisa iria averiguar e depois atacaria, se fosse o caso. Mas um gato faz justamente o contrário. Seu comportamento só serve pra colocar minhocas na nossa cabeça. Do nada, ela acorda no meio da noite, dá um pulo e finca as unhas no meu pé, daí fica olhando pra janela fechada como se estivesse enxergando através do vidro e da madeira. Não se mexe, prende a respiração e só encara a janela. Pronto, eu já começo a pensar em lobos, ataque alienígena, serial killers, zumbis. O céu é o limite. Demora um tempão pra ela relaxar, sendo que no fim não era nada. Passam algumas horas e novo despertar histérico. Agora ela sai em disparada até a porta da frente e começa a miar e pular como se um espírito tivesse encarnado nela. Daí, assim como começou o escândalo, de repente para e volta a dormir. Eu me pergunto: qual a função de um bicho assim?
Escrito por Índigo às 07h53
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Por que escrevo?
Quando me perguntam por que optei pela literatura infanto-juvenil, tenho duas respostas. A primeira é técnica. É o único tipo de escrita que faço bem. A segunda é emocional, e tem a ver com coisas assim:

Esse desenho é da Clair, do quinto ano, que leu Saga Animal. Nessa foto não dá para ver direito, mas Kleber (o iguana), Jessica (a coelha) e Godorico (o sagui) são em alto relevo e se mexem. Dentro da casinha está o casal de escargots apaixonados, com a luminária para criar clima. É praticamente uma leitura crítica.
Ainda sobre o Saga, outra coisinha que não posso deixar de comentar. Vira e mexe a gente ouve falar que hoje em dia as crianças não lêem. Isso sempre me chateia, pois a impressão que eu tenho é outra. Outro dia, numa visita ao Giusto Zonzini, a bibliotecária comentou que alunos que leram Saga Animal no ano passado, agora estão voltando e retirando o livro para reler! Dessa vez por prazer mesmo. Bem, fica aí o registro, só para combater o terrível preconceito contra uma geração que lê, sim. E depois relê, tá meu bem.
Escrito por Índigo às 09h23
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Numa rápida passadinha por São Paulo volto com:
4 livros novos para ler
3 revistas
Uma história suculenta envolvendo um delegado corrupto
Um pequeno rombo no orçamento
Convites
Informações atualizadas de quem está namorando com quem
Saudades das amigas
Escrito por Índigo às 11h28
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Da vila
Escrevo da Vila Madalena, ressaca, preguiça de trabalhar e vontade de ir na locadora buscar uns Losts para ficar assistindo. Acabei de almoçar com Bebel, como nos velhos tempos. É como voltar para uma vida pregressa, que era bem boa, para dizer a verdade. Algumas coisas mudaram. A Vila não é mais a mesma. Ontem, às três da madrugada, não tinha uma alma na rua. Parece cidade fantasma. Só a gente mesmo, que não aprender nunca. Quase perdi a perna. Contando assim não tem graça. Mas na hora foi engraçado. Bem, graças a Deus ainda estou com as duas pernas. A cabeça é que poderia estar melhor.
Escrito por Índigo às 14h20
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Temporada de lançamentos
Hoje tem lançamento da Ivana Arruda Leite. É o seu primeiro romance. Já li uns trechos, quando ela ainda estava escrevendo e cortando, escrevendo e cortando. Se naquela época o livro já era bom, agora deve estar incrível. Há tempo que eu torcia para a Ivana embarcar em histórias longas. Eba! Estarei lá!

Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915.
19h
E amanhã é a vez do Rodrigo Lacerda, com o livro “Outra vida”, do qual não sei nada. Só sei que pelo o que ele contou sobre como foi escrever esse livro, deve ser o tipo de livro que eu vou amar.
Mesmo bat-local, mesmo horário
Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915.
19h
Escrito por Índigo às 08h35
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Afazeres
1. Peneirar terra
2. Grudar uma orquídea num tronco
3. Varrer folhas do jardim da frente
4. Levar lixo para reciclar
5. Ligar para a Claro
6. Terminar uma revisão de uma vez por todas
7. Responder uma pilha de emails
8. Ir ao correio
9. Levar abacates para a vizinha
10. Transferir o sagu para um recipiente menor
11. Ler os três primeiros capítulos do meu próximo livro
12. Lavar panos de prato
13. Resolver se vou pra Flip ou não
Escrito por Índigo às 09h01
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A volta da horta
Iniciamos ontem a construção dos canteiros da nova horta. Dessa vez, com instalações profissionais. Confira: 1. Próxima a uma torneira. Trazendo muito mais prazer à sua experiência de rega diária. Agora, regar é um momento de diversão para toda a família. 2. Canteiros acessíveis pelos quatro lados. Chega de estica daqui e estica dali. É o fim da dor nas costas. Hortaliças acessíveis para a sua comodidade. 3. Sol pleno é apenas o começo. Canteiros estrategicamente pensados para maior aproveitamento dos raios solares. Suas hortaliças vão adorar. Plante, comprove e desfrute do festival de vantagens. 4. Terra vegetal produzida artesanalmente a partir de compostagem local. Você sabe: o segredo de toda horta está na terra. Com uma base rica, robusta e retumbante, sua horta é só alegria. 5. Canteiros alinhados e com bordas niveladas. Dignos de uma virginiana. Esteticamente perfeitos. Design clássico. Fileirinhas ordeiras e comportadas. A horta tal como você sempre sonhou.
Escrito por Índigo às 08h17
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A árvore dos desenhos
Sabe aquela árvore que toda criança desenha? Ela é um pouco mais alta que uma pessoa, sua copa parece um círculo mal traçado e tem várias frutas redondinhas penduradas? Pois essa árvore é um pé de mexerica. Agora estão todas do mesmo tom, como se tivessem sido preenchidas pelo mesmo lápis de cor. Outro dia eu estava varrendo folhas e senti um “toing” na cabeça. Olhei para trás e era uma mexerica que estava querendo atenção.
Elas são assim. É quase como se eu tivesse um cachorro. Elas viram tema de conversa com os vizinhos. Métodos de adubação. Fora os meninos que vêm perguntar se pode pegar. Depois que eles se enfiam no meio dos galhos a árvore vira jogo. O objetivo é pegar a mais difícil. Saem os meninos e chegam os passarinhos. Parecem versões mais atrevidas que os meninos. Fazem muito mais estardalhaço e sem um pingo de educação. Deixam mexericas destroçadas pelo chão e saem voando, sabendo que tudo bem, pois no fim eu vou achar uma gracinha mesmo.
Escrito por Índigo às 08h04
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Um post para Luiz Roberto Guedes
O querido amigo Guedes acaba de mandar email com perguntas que só ele poderia ter feito. E que me intrigaram. Pois Guedes, como eu, embarcou no universo de Laura Ingalls. Sendo que antes disso, ele também sonhou em viver numa casa da árvore.
LRG: Vem cá: "Vida no campo" é a sua versão de "Uma casa na pradaria"?
Bem, Guedes, como você sabe, tudo isso é articulado nos profundezas mais obscuras do nosso inconsciente. Mas, a resposta é sim. Depois que vim parar aqui é que me dei conta disso. Acho que no dia em que eu estava juntando lenha, com um facão pendurado na cintura, e pensei: “Uau, só faltam os ursos”. Agora que está fazendo um frio insano, e eu vivo de gorro, cachecol e luvas, me enrolo numa coberta e fico lendo na cadeira de balanço, penso: “é... era isso que eu buscava na vida”.
LRG: Você não tem medo de virar uma Emily Dickinson eremita?
Sempre lembro da Hilda Hilst, que se entocou lá na Casas do Sol e começou a falar com ETs, ou da Virgínia Wolf. É tentador. Morando aqui, o risco de virar uma eremita é bem real. Tendência pra isso eu tenho. Minha sorte é que meu marido tem sido eficiente em não deixar que eu vire um bicho do mato de vez. Outro dia ele sugeriu que fôssemos assistir um show em São Paulo. Levei um susto. Foi como se ele tivesse convidado para assistir uma corrida de Fórmula Um em Interlagos.
E por falar em Luiz Roberto Guedes, é nesta quinta! Até eu vou sair da toca pra prestigiar.
Lançamento de:
O Livro Vermelho dos Vampiros
13 contistas brasileiros, de diferentes gerações, injetam sangue novo no vampiro.
Organizada por Luiz Roberto Guedes, com ilustrações de Manu Maltez.
Contos de:
Andrea Del Fuego, David Oscar Vaz, Flávia Muniz, Índigo, Jeanette Rozsas, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Marcelo Coelho, Martha Argel, Moacyr Godoy Moreira, Richard Diegues, Santiago Nazarian, Tereza Yamashita.
Quinta-feira, 19:30h
B-Arco Brasil Arte Contemporânea
R. Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426, Pinheiros
Escrito por Índigo às 08h12
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Maçã e figo
Sábado de manhã, eu estava varrendo folhas e pensando no meu jardim quando passou o caminhão das mudas. É um caminhãozinho abarrotado de pés de tudo quanto é coisa. A versão campestre do Pamonhas de Piracicaba. Comprei uma macieira baby e uma figueira baby.
Nessa etapa de início de pomar é preciso muita fé e visão. Olhando de longe, parece que enfiei dois pedaços de pau seco no meio da grama. Mas aí está a beleza da coisa. Se você olhar direito, aos poucos vai vendo. Perceberá que ali a terra é diferente, verá os troncos que se estendem feito um par de braços, enxergará as maçãzinhas penduradas, depois as flores brancas, a serpente enroscada no tronco. Poderá até ouvir o que ela diz:
- Psiu! Você aí! Vem cá, vem.
Escrito por Índigo às 07h49
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Eu, Sidney
Quem me dera conseguir escrever o que eu quero. Escrevo aquilo que tenho capacidade. Agora estou fazendo a última leitura do meu próximo livro. É uma decepção. O tipo de literatura que eu queria fazer é outra, que não tem nada a ver com aquela que sai dos meus dedos.
Há alguns anos escrevi um livro que era exatamente aquilo que eu almejava. Um livro com um bando de personagens. Umas cenas tensas, dramáticas, gente desesperada. Reviravoltas. Intrigas. Gente aprisionada. Ali, sim, eu me senti realizada. Então fui ler o que eu tinha escrito. Era horroroso. Claro que não mostrei para editor nenhum. É isso, eu queria ser um Sidney Sheldon só que sem o dourado na capa. Um Sidney Sheldon cool.
Tem dias em que eu me espanto com minha própria cafonice. E ainda não são nem oito da manhã.
Escrito por Índigo às 07h48
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Quatro convites
Uma peça de teatro
Você nem precisa se levantar da cadeira. Esta é uma produção do Teatro Para Alguém. TPA, que faz teatro pela internet. E, incrível, dá certo. O texto é meu. “Maçã Argentina”. Clique aqui.
Um texto
Na revista Nova Escola desse mês participo de um projeto chamado “Escrevendo com...”
É assim: eu escrevi o começo de um conto. Você vai lá e manda sua sugestão de como acha que devo prosseguir com a história. Segundo a regra do jogo eu tenho de acatar várias sugestões. Então, por favor, clique aqui e me dê uma mão.
Duas antologias de contos
Das quais tive o enorme prazer de participar

O livro vermelho dos vampiros
13 contistas brasileiros injetam sangue novo no vampiro
Organização: Luiz Roberto Guedes
18 de junho
19:30h
B_Arco - Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426 – Pinheiros

Era uma vez para sempre
Organização: Marcelo Maluf
20 de junho
15:30 às 18:30
Livraria Martins Fontes – Av. Paulista, 509
Escrito por Índigo às 09h16
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Tchan-nan!
Não é todo dia, toda hora. É raro. Ontem, por exemplo, eu vi. Estava agachada, plantando umas mudinhas de folhagem quando ele pousou num galho à minha frente. O saíra sete cores. Este:

Essa foto eu peguei da internet, mas o olhar dele é esse mesmo. É um olhar maroto que pergunta:
- Viu só? Eu sou incrível!
Primeiro achei que estava vendo coisas. Ele percebeu meu espanto. Deu um pulinho e lançou o mesmo olhar, só que do outro lado. Uau! Então, só pra provocar, deu um rasante na minha cabeça. Quando olhei pra trás, era um borrão de cores indo embora. Pronto. Agora ele deve ficar uns dias sem aparecer. Sabe o valor que tem.
Escrito por Índigo às 09h01
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Oh, como eu sou uma pessoa boa!
Tem dias em que a vida atira oportunidades na sua cara, só pra ver o que você faz.
Duas freiras paradas na beira da estrada, com uma cestinha de vime pendurado no braço. Algumas semanas atrás essas mesmas freiras já tinham chamado minha atenção. Elas usam um hábito vermelho Pomarola, e são mais novas do que eu. Estranho que existam freiras mais novas que a gente. Mas a vida também tem dessas. Da primeira vez que as encontrei foi na fila do correio. Elas conversavam com uma outra mulher e usavam linguagem de rua, com direito a “ninguém merece...” E eu pensando: “nem a pau que isso é freira”. Então quando as vi, feito um par de Chapeuzinho Vermelhos paradas na estrada, não tive dúvida, parei o caro e ofereci carona. Elas aceitaram e eu fui puxando papo, para ver o que arrancava delas. No fim da carona uma falou sobre a Providência que teria providenciado para eu passar por ali. Então, sim, fiquei mais tranquila. Providência não é pra qualquer um.
Bem, esse post poderia acabar aqui.
Mas então...
Ainda estou me despedindo das freirinhas quando um carro breca no meio da estrada. Viramos para ver. Era um filhotinho de vira-lata que tinha se enfiado na frente do pneu e agora estava embaixo do carro. Tomada pela providência, corri para o meio da estrada, arranquei o filhotinho de baixo do carro e ainda fiz uma coisa linda: parei de pernas abertas e estiquei o braço, pedindo para o carro de trás parar. Depois corri com o bicho para o acostamento e sinalizei para todo mundo seguir.
Duas freiras e um filhotinho no mesmo dia. Na sequência. Foi cinematográfico.
Escrito por Índigo às 08h27
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Nove
Acabou a temporada de poder ficar mexendo no jardim. As plantas estão hibernando, entocadas. Não chegaram a colocar placas, mas sei que não querem ser incomodadas. A terra está gelada e dura. Ninguém se mexe, ninguém cresce, ninguém se espalha. Hoje aqui faz nove graus. Só as mexericas ainda se manifestam. São umas gracinhas. Sabem que agora, mais do que nunca, vamos precisar de muita vitamina C. É uma boa época para escrever. Os dedos doem. Estão mais duros e lentos. Quando trabalham, é para escrever a palavra exata. Pouca coisa acontece, então é melhor que aconteça direito.
Escrito por Índigo às 08h10
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Palavra perdida no fundo do poço
Antigamente existia a palavra “poupar”. No colégio de freiras onde estudei, elas viviam falando da necessidade de poupar isso e aquilo. A freira de quem eu mais gostava costumava ir pra África. Ia com uma malinha mínima e só. Eu achava aquilo o máximo da liberdade. Ainda acho, na verdade. Mas sinto que a palavra morreu. Agora se fala em “economizar”. Não é a mesma coisa. As pessoas economizam para ter mais. Poupar é o contrário. A gente poupa para manter o que já temos. Um conceito até meio estranho hoje em dia. É o caso do poço aqui. Ele anda despertando lembranças tão antigas em mim. Parece que quanto mais a água desce, mais fundo ele me leva.
Escrito por Índigo às 10h29
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De volta à vida selvagem
A bomba do poço quebrou, o que significa que só tem água na cozinha. E aqui, não adianta ligar pra Sabesp. É a gente e o nosso poço, com a bomba dentro. E vai balde pra cá e balde pra lá. Agora estamos aguardando a volta do vizinho. Com o vizinho podemos retirar a bomba. Daí leva a bomba pra cidade. E depois temos de pegar uma escada pra subir na caixa d’água e despejar água manualmente lá dentro. Ainda bem que ontem tomei banho em São Francisco Xavier. Fiquei numa pousada linda, com um chuveiro maravilhoso. Você ligava e a água caía em ducha, uma beleza. Ah, fora isso meu modem quebrou.
Escrito por Índigo às 10h23
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