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A vida num mosteiro
Mosteiro é um pedacinho de outro mundo. Lá você pode falar a língua que quiser. Cada um costuma falar a sua. Um vinho robusto, maluco e de origem misteriosa é servido nas refeições. No mosteiro há um jardim labiríntico. Todos ali já estão perdidos, de um jeito ou de outro. Mas, graças ao bom Deus, a cada hora um mongezinho pendura-se numa longa corda e brinca de balanço, marcando as horas do dia. Ele tem de fazer isso para que o tempo ande. É comum no mosteiro o tempo dormir no ponto.
Escrito por Índigo às 09h53 [ ]
Barcelona
Então o sonho acabou e quando dei por mim, estava na Espanha, Barcelona, hospedada num mosteiro. Não morri de amores por Barcelona. Sei lá, eu só queria voltar para Paris. Mas não tinha volta. Então tentei curtir a coisa. Fiz uma listinha de... Cinco Coisas que Curti em Barcelona: 1 – Eles constroem parques em colinas, e daí, no meio do parque tem uma escada rolante. Parece coisa de James Bond. Fiquei pensando: e quando chove? Vai ver eles inventaram uma tecnologia de escada-rolante à prova de chuva. 2 – A palavra “vale”, ou “bale”. Ela bale para qualquer coisa. É o ok deles. Se não está ok, você grita uma seqüência de “mira, mira, mira!”. 3 – Cerveja gelada. No resto da Europa eles ainda não aprenderam a gelar cerveja. Ts ts... 4 – A siesta, coisa que já faço na minha casa, mas lá a gente pode dormir em qualquer lugar. Praça, parque, no meio das ramblas marítimas. É normal. Eu dormia de babar. 5 – O “gostosa” deles, que é “uau!”, pronunciado assim: “UUUU-aaaaU!!
Escrito por Índigo às 09h37 [ ]
Leçon dix (la dernière): Influências parisienses
Se você permitir, Paris pode lhe transformar. No meu caso, uma mudança radical em relação à literatura. É como se tudo que escrevi até agora fosse rascunho. Provocou outras mudanças mais superficiais também. Regarde!
Escrito por Índigo às 11h21 [ ]
Leçon neuf: Como reagir a uma cantada
No dia em que comprei meu le trench coat, passei um bom tempo experimentando diferentes modelitos. Quando encontrei o que caiu melhor, dei uma voltinha e disse: - C’est parfait!
- Non!
- Parfait c’est vous, madame. Ah, sim. Como reagir à cantada? Acredite. Por que não? Escrito por Índigo às 09h08 [ ]
Breve intervalo comercial
Tem um balé sensacional rolando em São Paulo. Trata-se do “Ruído 5.1”, de um grupo chamado Núcleo Artérias. Não tem nada de ruído. É lindíssimo, engraçado, irônico, genial. Domingo é o último dia, então não pense muito. Vá! Recomendo. 30 e 1º de julho – Núcleo Artérias em Ruído 5.1. Sábados às 20h e Domingos às 19:30h Rui Barbosa, 153 - Bela Vista, São Paulo Ingressos: R$10,00 e R$20,00 Escrito por Índigo às 15h28 [ ]
De volta ao Manual de Etiqueta Parisiense
Leçon Huit: Como se comportar em Versailles Depois da cerimônia onde não fiz a entrega simbólica do meu livro para o secretário de cultura que não compareceu, fui a uma exposição na Pinacoteca sobre... tcha-nan... Versailles! Estava parada diante de um quadro do Luis XV, quando senti alguém cutucar meu ombro: - A senhora está mascando chiclete? Não era nenhum babaloo cheio de recheio, e eu não fazia bolas. Era uma gominha discreta. Mas, sim, estava. - Oui – respondi para a Segurança. - A senhora terá de jogá-lo. Tirei o chiclete da boca. - Onde? - Queira me acompanhar, por favor. Atravessamos quatro galerias. Ela, eu e o chiclete verde, num silêncio constrangedor. - O motivo para esse procedimento é evitar que a senhora grude o chiclete em alguma obra. Eu sei que a senhora não pensaria em fazer algo assim, mas são as normas. Aí é que ela se engana! Agora, nunca mais vou conseguir olhar para um Luis XV sem imaginar um chiclete grudado bem na ponta do seu nariz.
Em Versailles, sem chiclete Escrito por Índigo às 09h03 [ ]
Cartinha para João Sayad
Prezado Secretário de Cultura: Boa noite. Acabo de voltar do encontro para o qual o senhor me convidou e não compareceu. Aconteceu alguma coisa? Espero que não tenha sido nada grave. Sua assessoria não forneceu nenhuma explicação por sua ausência. Deve ter sido o despertador que não tocou. Entendo. Mas não é por isso que estou escrevendo. É mais para deixar registrada minha decepção em relação à sua decisão de reduzir o PAC de literatura deste ano para míseros 6 projetinhos, sendo 3 deles para áudio. Lamentável... Quando fui contemplada, no ano passado, eram 59! O senhor não acha que o corte foi meio radical? Eu achei. Bem, sei lá. O senhor é economista. Quem sou eu? O senhor não pode imaginar minha felicidade no final do ano passado, quando fui contemplada com a bolsa para criação literária. Finalmente um programa do governo de apoio a escritores! Algo inédito no Brasil. Graças a esta bolsa escrevi “Um Dálmata Descontrolado” que, sem exagero, é meu melhor livro. Vou lhe mandar um exemplar quando ficar pronto. Bem, é isso. Fiquei realmente decepcionada com sua política cultural e seu descaso para com os escritores.
Tenha uma boa vida. Sinceramente, Índigo Escrito por Índigo às 18h13 [ ]
Leçon sept: Attention à la tête!
Há anos escrevo sobre cabeças removíveis. É um desses temas recorrentes. No começo eu só escrevia a respeito. Ultimamente tenho sonhado que não tenho mais cabeça. Ou, se tenho, ela está em cima da mesa, no meio das almofadas. Um bom lembretinho, por sinal. Em Paris é fácil perder a cabeça. A minha, por exemplo, não voltou até agora.
Escrito por Índigo às 08h48 [ ]
Leçon Six: Não fique procurando isso ou aquilo
Tinha dias em que eu saía com um plano de ação. Tal igreja na parte da manhã, tal museu à tarde, uma passadinha em tal livraria, jantar em tal bairro. Nunca dava certo. Coisas aconteciam no meio do caminho. Isso não me preocupava muito. O que realmente começou a me preocupar eram os dias em que eu saía sem nenhum plano, nem unzinho. Em dias assim eu ia parar em lugares estranhíssimos. Teve um dia que, quando dei por mim, estava num parque cercada por cangurus. Eles não pulavam como os do desenho animado. Eram cangurus rastejantes. Eu só pensava na minha mãe: - O que você está fazendo com esses cangurus que não está no Louvre? Uma boa pergunta, reconheço. Mas por dias assim, completamente perdida, cheguei a um jardim pré-histórico! Sim, com árvores raríssimas, muito similares às que havia no planeta na pré-história, sendo que por outros motivos (literários) eu vinha pesquisando justamente isso: plantas pré-históricas. Eis a que encontrei! Fica em frente ao Museu de História Natural. Voilá!
Escrito por Índigo às 09h02 [ ]
Leçon cinq: Atenção aos recadinhos
Depois que você tiver saciado seus desejos mais básicos: torre Eiffel, Notre Dame, Louvre, etc... repare em les petites choses. Paris está cheia de recadinhos. Nesse temos um para Sarkozy (que tem deixado os parisienses de cabelo em pé) e outro para publicitários em geral.
Sarko num yatch e o povo nas galeras! Stop publicidade! O comercial diz: “Diga um preço”, o rabisco responde “mais barato”
Quem faz a revolução pela metade está apenas cavando seu túmulo. Escrito por Índigo às 09h12 [ ]
Leçon quatre (avec les photos): Como se vestir em Paris
Você pode vestir qualquer coisa, contanto que vista le trench coat por cima. É permitido usar le trench coat nas cores branco, preto, marrom ou alguns tons de bege. Só. Os homens devem optar pelo comprimento abaixo do joelho. Mulheres, no joelho ou dois palmos acima.
Nesta foto a turista ainda não está completamente à vontade no seu trench coat. Repare que falta alguma coisa.
Aqui, notem que temos um cachecol. Esse toque faz toda a diferença do mundo! Parabéns para ela. (Ao fundo, uma versão mirim do le trench coat)
Escrito por Índigo às 08h08 [ ]
Leçon Trois: Como se comportar na hora da chuva
Não compre um guarda-chuva (8 euros)! Entre no primeiro restaurante que você encontrar. Não precisa olhar os preços. Entre com autoridade e sente-se numa mesinha próxima à janela. Depois do horário de almoço os restaurantes viram espécies de cafés. Lá você estará aquecido, confortável, e, sem dúvida, apreciando uma vista linda. Dá pra ficar horas observando os parisienses andando de um lado pro outro. Dificilmente você terá de ficar horas esperando a chuva passar, mas caso aconteça, não se preocupe: nenhum garçon irá perguntar se você deseja alguma coisa. Quando estiver pronto para voltar à rua, simplesmente saia. Tranquille. Escrito por Índigo às 08h06 [ ]
Leçon Deux: Como atravessar uma rua
Simplesmente atravesse. Continue concentrado na conversa que estava tendo. Você estará conversando. Lá as pessoas conversam o tempo inteiro. Se nesse momento lhe ocorrer uma idéia brilhante, pare e gire nos calcanhares. Segure seu acompanhante pela cintura. “Vamos a um show de jazz?” “Vamos!” “Onde?” “Em Saint-Germain” “Pra que lado fica?” Nunca abra um guia. Pergunte para alguém que, como você, está atravessando a rua. A pessoa, muito solícita, vai lhe indicar a direção. Esta é também uma ótima oportunidade para tirar fotografias. Faixas de pedestre fornecem enquadramentos interessantes. Na hora de pedir para tirarem fotos suas, aborde um turista. Se você não gostar da foto, delete e peça para ele tirar outra. É prática comum. Pode acontecer, embora seja raro, de um motorista se irritar, botar a cabeça para fora da janela e lhe xingar. Nesse caso, jamais, jamais peça desculpas! Mande que ele passe por cima. Se ele continuar xingando, cuspa no pára-brisa dele. Faça cara de ofendido. Se tiver a fim, calmamente dirija-se à calçada. Sem pressa! Tudo muito calmamente. Parfect! Escrito por Índigo às 08h08 [ ]
Manual de etiqueta parisiense
Leçon Un – Como se comportar na beira do Sena Monsieurs: Imagine que você é um gato num telhado quentinho. Esparrame-se de pernas abertas, role de um lado para o outro com a barriga para cima, esqueça que existem pessoas à sua volta (inclusive turistas batendo fotos). Tire o seu casaco, amasse-o bem amassado e use-o como travesseiro. Quando o seu celular tocar, aí é que você vai esquecer da vida de vez. Espreguice, boceje e continue rolando, todo pimpão. Discretamente, muito discretamente, confira se você não está muito perto da borda. PS – Esse comportamento se aplica a todas as idades. Inclusive para os tiozinhos. Tenho certeza que FHC faz assim quando está em Paris. Madames: Leve um livro e uma garrafinha de vinho. Sente-se contra a mureta e curta esse momento delicioso. Nas partes boas, pare a leitura, toma um gole de vinho e suspire. Olhe de soslaio para os homens que rolam à sua volta. Não importa a posição em que estiverem, eles retribuirão. Continue sua leitura. Eventualmente um desses homens virá puxar um papinho com você. Seja blazê. Eles gostam, é permitido, faz parte do jogo. Converse com eles sem virar o rosto. Apenas quando eles disserem algo muito inteligente você os encara. Cuidado para não suspirar sem querer! Dê um sorrisinho, quanto muito. Escrito por Índigo às 09h39 [ ]
Três opções de subempregos internacionais
Passou pela minha cabeça ficar por lá. Cheguei a considerar maneiras de. Eis três opções.
Em Londres eu poderia ser a Patinadora Prateada. Se eu fosse uma boa fotógrafa, não teria cortado os pés, pois aí é que está a graça. O Patinador Prateado calça patins operados por controle remoto. Você (turista) controla o Patinador. A brincadeira é fazer com que ele se esborrache.
Em Paris tem a opção de Faraó Dourado. Eu só tenho de ficar paradinha em frente a Versailles. Quando a pessoa joga uma moedinha, eu me dobro para frente.
Em Barcelona eu poderia atacar de Sr. Fruta. É só ficar parada nas Ramblas, no meio de centenas de outras estátuas-vivas. Escrito por Índigo às 10h28 [ ]
Grifes
Em Paris até as pessoas pareciam levar assinatura.
Em Londres seria:
Escrito por Índigo às 09h01 [ ]
Shakespeare e o tempo
Estou trabalhando num conto que comecei a escrever há dez anos. Esta sou eu no Shakespeare’s Globe. As pessoinhas em pé ficaram assim, em pé, durante as quatro horas de peça. Sem se mexer, sem bocejar, sem dor na coluna. Dez anos para conseguir escrever um conto. A peça era Otelo. Na íntegra. Dá para comprar o livro na entrada e ir acompanhando palavra por palavra. É só mais uma história de amor. Só que eu nunca escrevi uma história de amor. Escrito por Índigo às 09h44 [ ]
Algumas marquinhas
Esse é um típico senhor inglês de Camden Lock. Repare como a vida vai deixando marcas na gente. Ontem, no Encontros de Interrogação do Itaú Cultural deu para sentir na pele como as pessoas nos odeiam. “Escritores são insuportáveis”, parecia ser o consenso geral. A proposta era abolir o escritor. A obra até podia ficar. Inúmeras vezes tatuei meu próprio rosto para conseguir uma boa história. É graças a essas marcas que a gente escreve.
Escrito por Índigo às 10h04 [ ]
Deprê pós-palco
Tava tão bom ficar dando um giro pela Europa. Depois, palco, luzes, aplausos. Mas e agora? Acho que vou ter de voltar para a produção literária do dia-a-dia. Humpf... Acabou o glamour. Ô vida...
Bem, sem você curte literatura a ponto de ir a um debate a respeito, tenho um convite. Hoje, no Itaú Cultural, começa o evento Encontros de Interrogação. Veja a programação clicando aqui. A minha mesa acontece às 18 horas e será composta por moi, Roger Melo e João Luis Carrascoza, com mediação do Fernando Paixão. Ou seja Hoje – quarta-feira Escrito por Índigo às 08h33 [ ]
De volta ao palco
No dia das mães de 2006, Ivana Arruda Leite e eu apresentamos uma peça chamada Mulheres Imóveis no Itaú Cultural. Fazia parte do projeto Autores em Cena. Eu perdi um monte de cabelo, tive dor de barriga, tremedeira. Foi um horror, e foi sensacional. Hoje a peça será apresentada pela segunda vez. Um ano depois. Estou acordada desde as sete da manhã falando sozinha. Falando coisas como: “Boa Noite, Ivana”!, às sete da manhã, com o céu escuro e esse frio. Teatro é isso. Agora vou passar o dia ensaiando até não agüentar mais. A Fernanda Dumbra fará a gente se sentir incrível e nós acreditaremos. Daí tem as fotos do Edson Kumasaka, que fazem a gente ficar com cara de louca varrida, e a trilha absurda do Maestro Marcello Amalfi, que faz com que a gente até rebole. Meu Deus! Então entraremos em cena e será tarde demais. É que nem entrar num carrinho de montanha-russa. Você só percebe que quer ir de novo, depois que acaba. Dessa vez vocês poderão assistir. Será transmitido via Embratal através do site do Itaú Cultural. Clique aqui às 20h e você verá. Sim, o motivo de tudo isso. Hoje é a festa de lançamento do novo site do Itaú Cultural, além do lançamento de uma enciclopédia de Artes e Literatura e abertura do Encontros e Interrogação. Ai... Escrito por Índigo às 07h51 [ ]
Make a wish
G.L: “Hello, dear! Você tem direito a um pedido.” I: “So sorry, um só não adianta.” G.L: “De quantos você precisa?” I: “Quatro.” G.L: “Hum...” I: “Primeiro, eu quero encolher até ficar desse tamanho.” G.L: “Certo.” I: “Depois quero voltar para o ano de 1907, Hertfordshire, no quarto de brinquedos de Elizabeth Bowes-Lyon.” G.L: “A futura rainha da Inglaterra?” I: “Essa mesmo.” G.L: “Que mais?” I: “Também quero que você encolha a Valentina, porque eu reparei que num cantinho da cozinha tem uma tigelinha com leite e outra com ração.” G.L: “Algo mais?” I: “E não esqueça a gente lá. No fim da tarde você desfaça tudo.”
Escrito por Índigo às 08h50 [ ]
Álbum de viagem
Em Londres ninguém se importa. Se você tem pele verde, cabelos azuis, uma orelha na testa, normal. Isso acontece por dois motivos. Segundo, porque eles são educados demais para ficar olhando. De acordo com essa lógica eu podia ficar parada no metrô durante horas, tirando fotos de mim mesma, sem nem me importar. Ninguém olhava, mas, sendo o primeiro dia de viagem, eu ainda me sentia ridícula, tirando fotos de mim mesma numa estação de metrô. E por isso cortei o “i”, mas, juro, era um “I” de Índigo, e esse é o nome de um festival de música que vai rolar em julho.
Bem no meio das flores (atrás de mim), fica a taça de vinho de onde Diana bebeu na noite em que morreu. À minha frente, uma escultura em mármore dela e do Dodi dançando no que imagino será o paraíso. Ela está com um vestidinho de verão esvoaçante e descalça. Ele com uma roupa de americano em férias no Caribe. Os dois sorriem e, se não me engano, tem um passarinho sobrevoando. Na plaquinha a inscrição: “Aos inocentes”. PS – Depois que a família do Dodi comprou a Harrods, a rainha nunca mais pôde mandar fecha-la para fazer suas comprinhas. Depois dizem que dinheiro não compra certas coisas. Agora a coitada fica lá, num salão austero de Buckingam, comprando pela internet, enquanto a turistada, agarrada ao portão, dispara flashes. Escrito por Índigo às 08h10 [ ]
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