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Um jacaré entre os americanos
Há quem diga que somos parecidos literariamente: Santiago Nazarian e eu. Eu achava que não, até que li “Mastigando Humanos” e agora tenho de admitir. Sim, somos parecidos, e isso me irrita. Mas também admito que é divertido, engraçado, doido doido doido. O subtítulo diz: um romance psicodélico. Nessa parte eu discordo, porque até onde sei, para algo ser psicodélico, tem de haver drogas, como em “Alice no País das Maravilhas”, que conta direitinho o que ela toma ou come para chegar aqui ou ali. Tirando as drogas, tudo o mais está ali em “Mastigando Humanos”, e eu recomendo. Ou vai ver a droga somos nós, humanos, e só agora, ao escrever este post, é que me dou conta disso. Ok, Santi, você venceu. É, sim, psicodélico até os ossos.
Escrito por Índigo às 14h54 [ ]
Americano 16: A alquimia de Lewis
O dinheiro vinha da venda de tabletinhos de LSD. Era uma produção caseira, logo ali na cozinha da casa do Lewis. A cozinha mais impecável que já vi. Branca, bem iluminada, com uma mesa de tampão de mármore e inúmeros vidrinhos, todos rotulados. Havia também liquidificadores, batedeiras, assadeiras e um processador multitarefa. De vez em quando Lewis assava tortas de maçã. Eram tortas tão apetitosas que perfumavam a casa toda. Na hora de servir ele adicionava uma bola de sorvete de creme. E assim conquistou todos nós. Quando Lewis também foi preso, a vizinhança sentiu sua falta. Mrs Petterson resmungou que nunca mais encontraria um inquilino como Lewis, e que do jeito que a coisa ia, os republicanos acabariam prendendo toda a juventude americana. As velhinhas do bairro ficaram sem as tortas de maçã. O povo das raves sem o fornecedor de drogas. Lewis era veneno para todos os gostos.
Escrito por Índigo às 09h33 [ ]
Americano 15: Os dólares de Maverick
Era abertura de exposição de mais uma série de cabeças de batata de Victor Valdez. O evento acontecia numa galeria pop com coquetéis coloridos. Mal dava para ver os quadros. E para a coisa ficar mais moderna, DJ e artista plástico eram a mesma pessoa. Nesta noite Victor Valdez virou DJ. Nunca mais pintou um quadro. Começou a fazer raves. Foi assim que conheci Maverick. Maverick tinha tanto dinheiro que de vez em quando ele pedia para guardar uma sacola ou duas na minha cozinha. Assim que ele saía, eu abria as sacolas e brincava de Tio Patinhas, jogando tudo para cima. Depois dobrava os dólares de volta, amarrava-os com elásticos e acomodava as trouxinhas na sacola. Tinha dias em que eu passava as notas, uma a uma, com ferro frio, feito guardanapo. Noutros, eu as pendurava no varal, como se fossem fotografias que contivessem a prova do crime. É uma pena que Maverick tenha recuperado aquelas sacolas antes de ter sido preso.
Escrito por Índigo às 09h52 [ ]
Geladeira 5
Por fora:
Por dentro:
Chegamos ao fim de uma semana de geladeira. Termino poeticamente. Termino com dois abacates e milho. Hoje viajo para o sítio, onde não há luz elétrica e por isso levo milho. Lá não há geladeira. Lá, depois que o sol se põe, a gente conversa. Levo meu bordado. Converso e bordo. Lá a geladeira é um balde onde colocamos nossas comidas. É lá que estou construindo um aquecedor solar com embalagens de refrigerante e leite. Dessa vez levarei minha nova câmera digital, essa pequena arma que está me dando tantas e tantas idéias. Penso em intercalar americanos e geladeiras, se bem que qualquer coisa pode acontecer. Afinal, este é um diário possivelmente verdadeiro. E vai saber o que a vida preparou para mim... PS – Os charutinhos ficaram maravilhosos. Sobrou recheio, vide tupperware com tampa rosa. Escrito por Índigo às 06h58 [ ]
Geladeira 4
Por fora:
Por dentro: Bem que o Abilio Diniz podia entrar nesse blog e enxergar a maravilhosa oportunidade de patrocínio aqui, dando sopa, pronta para ser agarrada e transformada num empreendimento comercial brilhante. Abilio salva uma escritora solitária, magrinha, mal-nutrida, que diariamente escrevia pedindo ajuda, abrindo sua geladeira e mostrando a aridez da sua alimentação num notável ato de desprendimento e sinceridade, em amor à arte. Abilio dá dinheiro para a escritora, uma filmadora digital e um personal-nutricionista. A escritora passa a ir diariamente ao Pão de Açúcar, com sua filmadora digital e faz compras fartas. Ela chega em casa e o personal ensina-a a cozinhar pratos magníficos. Os leitores, vendo os vídeos da feitura dos pratos, correm para o Pão de Açúcar. A escritora começa a ficar cada dia mais bonita, corada, bem disposta, saudável. Em janeiro ela sai na capa da Boa Forma, e Abilio diz: “De cara eu percebi o potencial da Índigo”, e eu respondo, “Ai, o Abílio Diniz foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”. Final feliz! Escrito por Índigo às 09h01 [ ]
Geladeira 3
Tenho certeza de que alguns leitores ficarão decepcionados, mas eu não vou fazer tipo. O que tenho a oferecer hoje é isto: nuances de verde. Sim, fui ao mercado e comprei uvas, gelatina e um repolho, que pode ser visto na terceira prateleira, dentro de um saco plástico. Este repolho vai virar charutinhos. Isto acontecerá amanhã. Farei charutinhos para consumo próprio. Fora isso, compre duas laranjas e um mamão, que ficam na fruteira, fora da geladeira. Certa vez li que as mulheres francesas também operam assim. Elas só compram aquilo que vão comer no dia, quanto muito no dia e no dia seguinte. Assim fica tudo sempre fresco. Bem, eu não fazia isso de propósito, mas achei a explicação tão boa que a adotei também. Um último comentário sobre as uvas. Jamais me passou pela cabeça comprar um cacho de uvas para comer, assim, na minha casa, a troco de nada. Então, agradeço as boas reações que tenho recebido em relação à série. Ela faz de mim uma escritora mais saudável. Escrito por Índigo às 08h55 [ ]
Geladeira 2
Se eu não fizer mercado hoje, será o fim da série geladeira. Ou isto ou terei de fazer textos existenciais falando sobre o vazio e a alimentação do espírito, sei lá. Em todo caso... Isso é o que tenho: pão integral, um resto de molho de tomate Pomarola e ervilhas da semana passada (na embalagem de queijo). Mais abaixo, no entanto, temos uma caixa de isopor que tem uma história e dentro, uma fatia de peito de peru. A fatia agora que foi detectada vai para o lixo. A história é sobre a própria embalagem de isopor. Ela veio para casa no começo do ano, numa tarde de domingo. Fui à padaria comprar um docinho e usaram esta caixa de hambúrguer como embrulho. Eu me senti tão culpada, ecologicamente, que venho reutilizando-a desde então. Ontem, lendo um manual de construção de aquecedor solar, descobri que vou precisar de isopor como isolante térmico. Esta história está no começo, e é o que está acontecendo agora na minha vida, fora da geladeira. Vou construindo um aquecedor solar a partir de garrafas PET e tetrapax. Com isso pretendo tirar um monte de lixo do planeta, e da minha geladeira. Bem, paro por aqui, antes que caia no existencialismo, conforme temia desde o começo. Escrito por Índigo às 08h11 [ ]
Geladeira 1
Por fora: Por dentro:
Passei o fim de semana no sítio com um grupo de amigos. Entre eles, Luís, um exemplo de determinação e firmeza. Ele está fazendo uma dieta natureba radical em que apenas coisas frescas e orgânicas são permitidas. Ele disse que sua urina agora tem cheirinho de frutas. Passei a pensar sobre minha alimentação, e vendo esta foto descobri que o potinho do meio é um enigma. Voltei à geladeira e fui ver o que era. É um resto de azeitona que ocupa este mesmo espaço há sei lá quanto tempo. Por que ela continua ali? A explicação está no pote ao lado: “Azeitonas Rivoli”. Esta eu consumo regularmente. Então, a Rivoli como que subjugou o menorzinho, de modo que eu parei de vê-lo. Depois desta constatação a situação foi resolvida. Se vocês não gostarem da Série Geladeira, tudo bem. Pra mim, pelo menos, vai fazer um bem enorme.
Escrito por Índigo às 09h12 [ ]
Série Geladeira
Vocês não falaram nada, mas eu percebi que os últimos americanos não foram bem-vindos. Assim, inauguro nesta semana a Série Geladeira. Durante toda a vida fiz coleções de cacarecos. Recentemente comecei a colecionar santinhos que fui colando na lateral da geladeira. Enquanto isso, na porta da geladeira eu tinha um monte de palavrinhas soltas. Até que um dia eu comecei a fazer legenda para os santos. Isso virou uma obsessão. Durante esta semana exibirei algumas das minhas melhores criações. E para dar um toque mais intimista, cada santo será acompanhado de uma flagra do que há na minha geladeira no dia. Escrito por Índigo às 09h10 [ ]
Americano 14: Victor Valdez para o alto e avante
O namorado que rachou no meio do parque também era artista. Ele pintava quadros com pessoas com cabeça de batata. Seu nome era Victor Valdez, e antes de ser americano ele era mexicano. Ele virou americano num 4 de julho, que é o dia em que todo mundo sai na rua com o rosto pintado de azul e estrelinhas brancas. Durante todo o mês de junho Victor Valdez estudou os direitos e liberdades do cidadão americano, fez uma prova e passou. A cerimônia de naturalização foi num parque cheio de bexigas e cachorros-quentes. Nós cantamos o hino e ele fez um juramento. Todos os mexicanos juraram não sei o que naquele dia. Não consigo lembrar o que tanto juravam, mas era bonito de ver. E depois que ele desceu do palco, agora como americano legítimo, ele me pegou no colo e nós decolamos dali. Voltamos voando de mãos dadas para casa, enquanto fogos de artifício iluminavam o caminho.
Escrito por Índigo às 08h58 [ ]
Americana 13: Shelly Myer e o sentido da vida
Pensando bem, há anos vivo cercada de artistas. Shelly Myer era artista performática. Isso significa que tudo que ela fazia, desde escovar os dentes até roubar meu namorado, era arte. Um dia ela apareceu em casa, no meio da noite, dizendo que ia se cobrir de lama e permanecer estática até a lama começar a rachar e descolar de seu corpo, porque isso é a vida. Desejei-lhe boa sorte e fechei a porta. Mas a coisa não acabava aí. Ela precisava de um elemento masculino: meu namorado. Três semanas depois, enquanto eles rachavam, abraçados e pelados, num tablado, no meio do parque, eu assistia, e repetia para mim mesma que aquilo serviria para alguma coisa, algum dia. Serviu para este post, o que apenas prova que a arte não compensa, e a literatura muito menos.
Escrito por Índigo às 09h34 [ ]
Um pernambucano entre os americanos
No blog dele, esse aqui, ele dá o calendário completo de tudo o que acontecerá de hoje até domingo. Vale conferir. Como tudo o que Marcelino faz, será demais. Escrito por Índigo às 09h31 [ ]
Americano 12: Os ossos do professor Grunjenberg
Uma outra facção de velhos hippies ignorou as novidades tecnológicas e foi para o meio do mato morar em cabanas. Quando eu cheguei na cabana do professor Grunjenberg, ele já estava lá há vinte anos. Mandou que eu tirasse os sapatos antes de entrar. Havia ossos espalhados por toda parte. - They´re not real, you know... Mas pareciam terrivelmente reais. Só não eram reais porque aquilo era arte. Ele tinha feito osso por osso, de gesso. Grunjenberg era um hippie judeu. E por isso, mesmo sendo artista e hippie, ficou rico. Vivia sozinho na cabana e de vez em quando recebia estudantes de arte para churrascos. Eu não era estudante de arte. E como não-artista eu só podia beber cerveja e comer carne, sem participar das discussões. E também não poderia ter jogado um osso para o cachorro buscar, principalmente porque o osso que joguei era arte.
Escrito por Índigo às 14h30 [ ]
Americano 11: Brad apresenta o futuro
Conheci a internet através de Brad Tyson. Todos meus amigos iam à casa de Brad e eu não entendia por que. Ele tinha 30 anos a mais do que nós e usava uma peruca laranja. Até que um dia eu resolvi ir também. Era uma casa de vovozinha, com flores de plástico nas mesinhas de centro e anjinhos de porcelana nas prateleiras. O fogão ficava protegido por uma toalhinha de tricô. Quando descemos para o porão, achei que nunca mais sairia com vida. E lá, no porão da vovó Tyson, máquinas e mais máquinas bipavam e emitiam sons de conexão por linha discada. Hipnotizados perante as radiações dos monitores, alguns dos meus amigos, olhos arregalados, teclavam como maníacos. Baixavam imagens pornográficas enquanto conversavam com pessoas no Japão, ou na máquina ao lado. Depois disso, levou mais três anos para eu voltar a ouvir falar de internet. E graças àquela peruca laranja, durante esses três anos pensei que a internet fosse apenas uma excentricidade de ex-hippies, e que não daria em nada.
Escrito por Índigo às 15h06 [ ]
Anestesia na cabeça
Acabo de voltar da doutora que cuida dos meus cabelos. Eles pararam de cair, graças a Deus, e às aplicações. Há alguns meses, todo mês, tomo 10 injeções na cabeça. No começo eu achava que elas se infiltrariam no meu cérebro e seria meu fim. Mas a verdade é que nada de extraordinário aconteceu, a não ser uma dormência na alma. É pra doer, mas não dói. - Tá doendo? – pergunta a médica, que parece ter saído de algum vilarejo do Senhor dos Anéis. - Não... - Nadinha de nada? - Nada. E ela vai aplicando. Depois eu pego o carro na garagem, chego em casa, respondo meus emails, cobro dinheiro de quem está me devendo, escrevo um texto emocional para uma marca qualquer e não sinto nadica de nada. Escrito por Índigo às 11h24 [ ]
Saindo das trevas
Agora, sei lá porque, decidi sair das trevas. E de uma hora para outra tenho um computador que faz o que ele quer, uma camera digital, um scanner, um queimador de CDs, um programa para baixar músicas, Google Earth e em breve um celular. Ah, e voltei para o Orkut. Agora, enquanto escrevo, ouço Lenny Kravitz gritando. E ontem, no You Tube, cheguei em lugares inimagináveis. E hoje, tentando fazer com que o computador perceba que quem manda sou eu, levei uma surra. Mas consegui baixar uma foto. Eis a criatura. Estamos em guerra. Torçam por mim.
Escrito por Índigo às 17h50 [ ]
Relatório de férias
O que eu não consegui fazer 1. Operar meus olhos 2. Levar bolsas com alças arrebentadas ao sapateiro 3. Viajar para a Europa ou Bonito, ou sertão da Bahia 4. Que os atendentes do UOL resolvem o pau do meu email 5. Que minha bicicleta troque de marcha nas ladeiras 6. Obter uma resposta de alguma editora que queira publicar meu “ Pinguim Tupiniquim” 7. Fazer com que a VIVO troque meu celular 8. Um passeio de barco 9. Passar uma tarde bebendo chocolate quente em frente ao lago Ness 10. Ter um click e começar a falar francês fluente Escrito por Índigo às 17h56 [ ]
Fim das férias
Hoje minhas férias acabaram. Aconteceu o que eu achava que ia acontecer. Pintaram três frilas de ontem para hoje. Um deles com data de entrega para segunda-feira. Então, adeus férias. Foi bom enquanto durou. Mas fato é que eu não consigo recusar trabalho. Já comi muito miojo nessa vida e sei o que é não ter frilas. Sei o que é ter de pendurar cartazes pela cidade anunciando meus serviços literários. Então, aqui estou. Trabalhando e feliz da vida. Enquanto o resto da cidade faz as malas para pegar estrada no feriadão, volto ao teclado. Na verdade, estava com saudades desse blog. Para os que ficam, até amanhã. beijinhos
Escrito por Índigo às 16h29 [ ]
Férias mesmo.
Neste fim de semana resolvi que preciso me afastar dos computadores, e por conta disso vou interromper este blog. Volto em novembro. Escrito por Índigo às 15h09 [ ]
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