Gatos, cachorros e Lula

Minha gata Valentina é gorda, fofa e parece um brinquedo. Muito mais brinquedo do que bicho. Uma gatinha de conto de fada. Mas ontem Valentina se transformou. Um gato da vizinhança, conhecido nosso, invadiu minha casa. Pulou a janela e entrou no meu escritório. Valentina voou do sofá direto para o meio da sala, deu uma derrapada, atracou-se no pescoço do gato e rugiu feito um leão. Fincou as unhas nos seus olhos, meteu-lhe um tapa na cara e com um pontapé hercúleo, jogou-o pela janela. Tudo isso em dois, três segundos no máximo. Depois foi para o muro e passou o resto da noite lá, na espreita.

No domingo um amigo me contou que sua labradora, velhinha, defendeu-se, com louvor, ao ser atacada por um pitbull na rua. E ele também, como eu, ficou pasmo.

Então eu me pergunto: se isso é instinto animal, como explicar aquela cadeira vazia ontem? Lula já teve seu tempo heróico, do qual tenho saudade. Já teve instinto. Teve.



Escrito por Índigo às 07h24
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Americanos entre os franceses

Fui assistir Asterix e quase engasguei nas pipocas. Eles falam inglês! Nunca vi tamanho vandalismo na minha vida. É pior do que ver filme japonês em espanhol, coisa que já vi. Pra mim, perdeu toda a graça. Nem dá vontade de comentar.

Comento apenas que, mais uma vez, por ser uma animação, acabam esquecendo do roteiro. Inexistente. Bah... Não gosto mesmo de comentar trabalhos medíocres. Fica apenas o alerta: evitem!



Escrito por Índigo às 10h42
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Minhas férias

Faço uma breve pausa na série dos americanos pois estou de férias. São férias de frila. Como frila, nunca tinha feito nada assim, nem sabia que era possível, mas tem funcionado. Eis o que caracteriza temporada de férias, para uma frila:

  1. Entreguei todos os trabalhos que eu tinha para entregar.
  2. Não vou procurar novos trabalhos porque estou de férias.
  3. Não vou viajar, pois se aparecer algum novo trabalho as férias acabam imediatamente.
  4. Como estou de férias, posso finalmente escrever o que eu quero!
  5. Assim, como escritora em férias, escrevo o dia inteiro.
  6. Entre uma escrita e outra vou ver exposições, mas tem de ser grátis, pois não estou ganhando dinheiro.
  7. Como não estou ganhando dinheiro, tenho de cozinhar minha própria comida e agora só como em casa.
  8. Quando canso de escrever, leio. E agora, como estou de férias, só leio o que eu quero.
  9. Como só leio o que eu quero, acabo gastando dinheiro com livros, dinheiro que não estou ganhando.

    10. Paro por aqui. Desconfio que as férias não vão durar muito.


Escrito por Índigo às 08h37
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Um mago entre os americanos

Pergunta: se eu fosse o Paulo Coelho, eu teria problemas com editoras?

Resposta: sim, o Paulo Coelho também sofre com editoras.

Isto eu li numa entrevista em que ele fala do seu novo livro, "A Bruxa de Portobello" com tiragem inicial de 300 mil. (A mesma que o meu "Cobras em Compota", hehehe). Em todo caso, ele fala que agora, de tanto em tanto, muda de editora. Desde que eu comecei a reparar nessas coisas: quem publica com quem, ele já passou por Rocco, Objetiva e agora está na Planeta. Segundo Coelho, é porque no começo de sua carreira as editoras brasileiras o tratavam com desprezo. E agora ele se vinga pulando de uma para outra. Entendo o coitado. Eu consigo imaginar o almoço dos editores:

- O mago vem aqui hoje assinar contrato.
- Ele bem que podia tirar um tarô pra gente.
- Ele não tira mais tarô.
- Ah... o que é que custa? Um tarozinho rápido.
- Peloamor de Deus, não fale em tarô!

Mas eles falam. E Paulo Coelho tem de tirar o tarô, ou o livro não sairá no prazo. E quando ele tenta conversar sobre o texto da orelha, tem uma fila enorme, pois agora a secretária, o boy, todo mundo quer consultar. E ele vai embora desiludido, sabendo que nunca será levado a sério. Vai pra casa e abre um blog.



Escrito por Índigo às 09h53
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Livro novo nas bancas!

Esse meu novo livro, "O Segredo do Vô Juvêncio", faz parte da coleção Br.Doc da Editora Escala Educacional. Ele tem um gostinho especial por 5 motivos:

  1. Será vendido em bancas de jornal em todo o país
  2. É um livro encomendado. Eu tinha de criar uma história a partir de 3 critérios. Eram eles:

    2.a - Ter um mistério a ser solucionado

    2.b - Envolver um documento na trama

    2.c - A ambientação devia ser em algum lugar, real, do Brasil.

  3. É meu primeiro livro com pistas!

  4. A matéria-prima do livro é feita de: piratas, adolescentes, praia, fantasmas e diários.

  5. Não sei, não, mas acho que com esse livro começo uma nova linha narrativa... Veremos.

Clique aqui para ver os livros dos outros escritores que participaram da coleção.

É isso. "O Segredo do Vô Juvêncio", já nas bancas!



Escrito por Índigo às 09h51
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Americano 10: Thank you Bert

Fiz meus primeiros escritos entre os americanos. Fui alfabetizada por eles. E, dez anos depois, foram eles quem colocaram na minha cabeça a idéia de ser escritora. Serei eternamente grata à Mrs. Gjendwal, que pacientemente me ensinou cada fonema. Mas, para ser sincera, eu aprendi mesmo foi com Ernie & Bert, mais com Bert do que com Ernie. Eles discutiam bastante por questões da vida na rua Sésamo. Questões civis. Mas quando não discutiam, e lembravam que havia crianças sentadas em frente à televisão, eles davam umas aulinhas. E foi com essas aulinhas que eu aprendi a escrever. Depois, graças a Elmo, entendi subtração, pois ele tinha cinco maçãs, engoliu três e ficou com duas. Isto, nenhuma professora fazia, pelo menos não em sala de aula, sem mastigar.



Escrito por Índigo às 11h17
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Americano 9: Matt had a house

Com 17 anos de idade Matt tinha uma casa enorme só para ele, sem pai nem mãe. O pai tinha matado a mãe e foi para a cadeia. Os irmãos mais velhos de Matt ficaram muito abalados e mudaram-se para outras cidades. Mas Matt ficou e nos convidava para ir lá jogar bilhar, assistir filmes, comer pizza. E a gente ia. Não por Matt ser um cara legal. Ele era estranho. Íamos para procurar pistas, um resto de sangue no carpete, um chumaço de cabelo no antigo quarto do casal, qualquer coisa assim. Às vezes Matt se esquecia de que tinha nos convidado e enfiava-se no computador. Ou nós nos esquecíamos de Matt, não lembro bem.

Com o passar do tempo, Matt nem sabia mais quem entrava e saía de sua casa. E a turma aumentava. Não importava que não encontrássemos pistas. A casa passou a ser nossa, até o dia em que encontramos faixas pretas e amarelas na porta. Da noite para o dia Matt havia sido levado para uma instituição. Acabou-se a casa, assim.



Escrito por Índigo às 10h39
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Americano 8 - Greg sem graça

Eu não sei como é hoje, mas naquele tempo os presidiários de macacão laranja eram os mais nervosos, que arrancam cabeças com tampas de canetas BIC.

Minha missão era entrevistar Greg, o presidiário poeta.

O guarda mandou que eu esperasse numa sala com duas cadeiras e uma mesa. Disse que havia um botão debaixo do tampo da mesa.

Qualquer coisa era só eu apertar, que nem a Jodie Foster com o Hannibal. Bem, ele não disse isso, mas estava implícito.

Fiquei ali uns bons 15 minutos antes de Greg, o poeta, chegar. Devia ter um monte de gente atrás do espelho. Nem olhei. A Jodie não teria olhado.

Greg, o poeta, entrou dizendo que não estava num dia bom. Estava algemado, mãos e pés. Fiz as perguntas que, como boa estudante de jornalismo, tinha preparado. Ele respondeu mais ou menos, achando todas elas muito bobinhas, e eram mesmo.

Greg não tinha nenhuma tampa de caneta BIC escondida debaixo da língua e eu não apertei o botão debaixo do tampo da mesa. Uma pena. Se tivéssemos, teria rendido um post bem melhor.



Escrito por Índigo às 12h37
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Americano 7 - Jesus Christ

O padre disse que Jesus tinha um recado para nós.

- Fechem os cadernos e prestem atenção.

Pelo jeito, era um recado importante.

- Quando Deus criou cada um de vocês, ele tinha um propósito em mente. Agora Jesus gostaria de saber se vocês já descobriram esse propósito.

Jennifer levantou o braço.

- Ele quer saber para que a gente serve?

- Exatamente. Abram o caderno e escrevam o propósito. Vocês têm 10 minutos.

Não podia ser amar o próximo, ser bom, amar a Deus. Tinha de ser algo específico e pessoal. Eu tinha 9 anos de idade e naqueles 10 minutos descobri meu propósito. Escrevi no caderno e fui a primeira a entregar para o padre. Ele colou um adesivo com um sorrisinho no canto da página.

O Jesus Cristo americano é assim. Posso vê-lo colando adesivos sorridentes quando cumprimos nossa missão.



Escrito por Índigo às 09h58
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Americano 6 - Dr. Kinder dá três pontinhos

Durante um mês andei de tapa-olho na esperança que ele se acomodasse. Em vão. Já começava a considerar substitui-lo por um de vidro quando meu vizinho disse que eu deveria procurar um dentista. Eu não sabia, mas é assim mesmo. Deslocamento de olho é caso para dentista. Marquei horário com o Dr. Kinder.

Dr. Kinder tinha uma caveira num canto do consultório, o que sempre passa uma boa impressão. Ele entendia que nós, pessoas, somos mais do que dentes. Dr. Kinder nem pediu para eu abrir a boca, o que foi ótimo também. Sinal de que entendia minha prioridade. Ele deu três pontinhos imperceptíveis e disse:

- Prontinho! Agora está firme e forte.

Pediu para eu arregalar os olhos. Arregalei e tudo bem. Então pediu para eu balançar a cabeça bem rápido, como se estivesse numa rave. Balancei. Por fim, disse para eu me sentar na ponta da cadeira e encostar o topo da cabeça no chão. Obedeci e nadinha de nada. Tudo no lugar. Dr. Kinder aconselhou uso diário de fio-dental, para os dentes.



Escrito por Índigo às 15h30
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Americana 5 - Um cheque para Mrs Petterson

Ninguém foi solidário comigo quando meu olho caiu. Acharam aquilo inaceitável. A senhora Petterson, minha senhoria, enrugou o nariz e nem disfarçou o nojo. Fechou os olhos, bufou e (depois de ter pedido a Deus por paciência), encarou-me novamente. Quis saber como, exatamente, um olho cai.

Respondi que ele caía, simplesmente. Ploct. Fica pendurado por um fiozinho chamado nervo óptico. Ela não acreditou. Disse que "nunca ouvi falar desse tipo de coisa". Pediu o cheque do aluguel.

Respondi que na minha terra, um país chamado Brasil, era muito comum.

- How interesting - respondeu, embora não tenha achado aquilo nada interessante.

Com alguma dificuldade fiz o cheque. Eu tinha de virar a cabeça de um jeito estranho para escrever, de um jeito que fazia parecer que eu quisesse ver as pernas da senhora Petterson.

A senhora Petterson pegou o cheque e meteu-o no bolso. Disse para eu ter cuidado com o carpete. Pensei em explicar que mancha de olho sai com vinagre, mas achei melhor não.



Escrito por Índigo às 07h55
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Americano 4 - Kevin em Miami

De vez em quando meu olho cai para fora. Caiu pela primeira vez quando eu estava esperando o resultado do vestibular, em Ubatuba. Eu procurava meu nome no jornal e nada... Então o olho caiu. Fui levada ao pronto-socorro onde recolocaram-no e prenderam-no com um tampão.

A segunda vez foi em Miami. Dessa vez eu estava na praia, pensando que se pegasse um pneu, podia chegar à Cuba. Então ele caiu. Kevin, deitado ao meu lado, com um chapéu no rosto, tentava pegar uma cor, deitado na areia.

Falei para ele não tirar o chapéu do rosto e nem abrir os olhos, apenas ouvir o que eu tinha a dizer. Então expliquei que algo tinha acontecido comigo, e para ele não se assustar quando visse. Pronto, ele jogou o chapéu longe, abriu os olhos e soltou um:

- What the hell! - que significa: Credo! Como diabos você foi fazer isso?

E me levou correndo para um pronto-socorro onde fizeram exatamente a mesma coisa que em Ubatuba. Durante dez dias andei feito pirata em Miami. E cada vez que encontrávamos um papagaio, Kevin colocava-o no meu ombro e batia uma foto. Lá eles não falam "olha o passarinho". Falam "cheese". E é disto que eu me lembro. Eu falando muitos queijos, com 50% de Cuba na escuridão.



Escrito por Índigo às 10h32
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Americano 3 - Good morning, Johnny

O ônibus passava às 7:43. Se eu perdesse aquele, o próximo seria apenas às 8:19. A diferença entre 7:43 e 8:19 era ficar parada no frio de vinte graus negativos. Nas primeiras semanas eu ficava mais fascinada com a pontualidade de Johnny, o motorista, do que com o frio que alfinetava meu nariz. Meu nariz era a única parte do meu corpo que ficava exposta. Em certos dias, nem ele. Eu era um bonequinho do SouthPark. Johnny era um sobrevivente da guerra do Vietnã. Eu, bonequinho, era a única pessoa no ponto de ônibus às 7:41. No meu fascínio pela pontualidade de Johnny, acabava chegando dois minutos antes, não por temer um erro por parte dele, mas meu. E ali eu ficava, numa cidade quieta, de casas fechadas, sem passarinhos, sem cachorro latindo, sem carros. A neve caía sem som. Depois de dois minutos Johnny berrava:

- GOOD MORNING, FRIEND!

Aprendi a berrar de volta, como os outros passageiros:

- GOOD MORNING, JOHNNY!

E assim viajávamos, eufóricos e estranhamente alegres, aos berros, rindo, certos de sermos superiores aos vinte graus negativos.



Escrito por Índigo às 09h07
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Americana 2 - Tracy por pouco tempo

Se não fosse pelo nome, ninguém diria que Tracy era americana. Ela parecia ter 10 anos a mais do que nós. A mãe havia morrido logo depois do seu nascimento, e ela, assim que começou a andar, passou a cuidar da casa, dos irmãos e do pai. Certo dia Tracy começou a estudar francês, depois hebraico e por fim espanhol. Deixou de usar tênis. Encontrou, sabe-se onde, uns sapatinhos de pano, incompreensíveis. Pouco tempo depois encontrou um muçulmano de longos cabelos negros.

Quando ficaram noivos, Tracy comandou a festa esbanjando todo seu respeito por uma tradição que tomou como sua. Acrescentou aos sapatinhos de pano umas batas com espelhinhos. Esperou um ano e se casou com Ali. Na última vez que os vi, foi no aeroporto. Ali tinha cortado os cabelos.

Ela, muito orgulhosa, já estava de burca na bolsa.

- Quer ver? - perguntou.

No banheiro do aeroporto não consegui ver nem seus olhos. Mas sei que sorriam. Ela finalmente tinha conseguido deixar de ser a americana que nunca quis ser.


As burcas são índigo



Escrito por Índigo às 11h35
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Um Turco entre os americanos

Desde criancinha, toda eleição vejo propaganda de um político horroroso chamado Turco Loco. Há alguns meses, na esquina de casa, uma turma de grafiteiros está trabalhando numa obra, num dos poucos muros livres da Vila Madalena. Fizeram um painel lindo, com uns cangaceiros e outras viagens.

Então, no fim de semana, o Turco Loco foi lá e passou tinta branca no muro e escreveu, em letras garrafais: Turco Loco e seu número.

Fiquei chocada. Foi um auê na rua. Chamamos a polícia. Ninguém se conformava. Um assassinato artístico, assim, na maior cara de pau!

Agora acabo de passar por lá e a galera do grafite voltou. Estão pintando suas viagens por cima do Turco Loco. Hehehe. Se bem conheço os grafiteiros, até o fim do dia não sobrará nem unha de Turco Loco.



Escrito por Índigo às 15h08
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Americano 1 - A facilidade de Stewart

Stewart tinha uma bicicleta tão magra quanto ele. Chegou à cidade numa noite de quinta-feira, entrou no bar e ficou nosso amigo, assim, de cara. Só no dia seguinte alguém se lembrou de perguntar de onde surgiu Stewart. E só assim descobrimos que ele não era amigo de ninguém. Um forasteiro.

No dia seguinte encontrei Stewart tomando sorvete perto do rio, montado na sua bicicleta. Ele disse que tinha gostado da cidade e daria um tempo ali, para descansar. Estava pedalando há oito meses, passando por todos aqueles quadradinhos de estados americanos. Stewart foi morar num armário. Alugou um armário vazio de um amigo meu, tirou os gaveteiros e instalou seu saco de dormir. Pagava US$30 pelo aluguel, com direito a usar o banheiro.

Era uma alegria ter Stewart na cidade, pois de todas, tinha escolhido a nossa, com a nossa turma. Era uma amizade relâmpago. Ele chegava com seus cabelos espetados e histórias doidas. Graças a ele descobri o que acontecia nos outros quadradinhos do mapa. Um dia Stewart sumiu, nem um bilhete no armário, exatamente como sabíamos que aconteceria.



Escrito por Índigo às 08h51
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O povo pede literatura!

OK. Vocês venceram. Querem literatura, né? Então vamos lá.

Depois dos "73 Bichos", pensei em escrever "73 Americanos", mas os americanos viraram subempregos e eu nunca voltei a eles. Hoje é um bom dia para voltar ao tema, como uma espécie de homenagem. Não serão 73. Vamos ver até onde eu chego. Uma coisa é importante dizer: estas histórias são baseadas em pessoas reais. Devem estar vivas em algum lugar do globo.



Escrito por Índigo às 08h49
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Boletim de jardim

Dentro de alguns dias os botões de mini-rosa vão abrir e o pé de jasmim dará flores brancas e perfumadas. O véu de noiva, que passou o inverno com cara que ia desfalecer a qualquer hora, agora está todo alegre. Novos brotos pipocando a cada dia.

O manacá está no seu tempo de repouso. Ele deu suas flores em maio. Ficou florido até meados de agosto. Agora só no ano que vem. Nas próximas semanas ele ficará mais verde e robusto. É um bom manacá. Confiável.

Eu estou com um original de um novo romance em várias editoras, desde fevereiro. E até agora, nenhuma resposta. Chegará a primavera e os editores não vão associar as coisas. Não vão lembrar de que algo tem de acontecer. Vai ver é por isso que tenho me interessado por cactos azuis. Passam-se os meses e eles continuam inabaláveis, nem vivos nem mortos, indiferentes a tudo.



Escrito por Índigo às 19h01
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Na academia se faz, na academia se paga

Meu treinador achou um exercício para as minhas costas. Seria mais fácil eu gravar um vídeo e mostrar aqui. Mas como não tenho vídeo, nem paciência, vou tentar explicar com palavras.

Imaginem a tábua de um navio pirata, onde os prisioneiros andam amarrados antes de serem atirados aos crocodilos. Agora imaginem que em vez de me colocar para andar nesta tábua, o treinador me amarrou na mesma. Fico com as pernas amarradas e o quadril e torso suspensos sobre o mar aberto.

A tendência é eu me dobrar assim: ---j
Estes três tracinhos seriam minhas pernas. E a letra j meu corpo que dobra para baixo. Mas daí um crocodilo tenta arrancar minha cabeça.

Então, com as mãos amarradas, eu ergo o corpo, assim: --- --O
Aqui os três tracinhos continuam sendo minhas pernas, e meu corpo é dois tracinhos. Minha cabeça um O.

Se eu fizer isto 36 vezes sem que nenhum crocodilo arranque minha cabeça, a dor passará, e meu abdômen, ah... será a grande sensação do verão 2007. Aguardem!



Escrito por Índigo às 09h16
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Meus músculos

Fiquei uma semana e meia sem ir à academia. Por motivo de forças maiores. Várias forças. Uma delas é que comecei a sentir dor nas costas. Mas como fiz aniversário esses dias, achei que era por estar ficando velha. Velhos têm dores nas costas. A minha dor começou dois dias antes do aniversário, como um presentinho precoce. Então achei normal. O único jeito de não doer era andar que nem velha coroca, o que me fez compreender porque velhos andam assim.

Ontem voltei à academia, toda simpática e tentando justificar minha ausência. É a academia mais séria que já freqüentei. Heitor, meu treinador, fica realmente magoado, com cara de traído. Deve pensar que passei a última semana comendo bolo de chocolate na padaria da esquina. Jurei que não. Mas ele não acredita. Depois de meia-hora ele se rendeu:

- E aí?

Esse "e aí" significa: "tá conseguindo fazer alguma coisa depois de 10 dias parada?"

Falei das minhas costas e ele, vitorioso, disse que provavelmente a dor começou porque eu fiquei parada. E fez uns passinhos de dança. De vez em quando ele dança, do nada. Agora, até morrer, nunca mais vou poder parar a academia, ou a velha coroca atacará novamente.



Escrito por Índigo às 10h00
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Dica de livro

Lá na Livraria da Vila ainda existe uma coisa chamada o livreiro, que é a pessoa que conhece livros e conhece a gente. Então, quando estou por lá e a Bia diz: "Índigo, você TEM de ler esse livro!", eu compro na hora. Pois lá, quando ela diz "você", não é como uma propaganda de celular. É real. É porque há alguma coisa naquele livro que tem a ver comigo.

O livro era "Amanhã, numa boa" e a autora, uma garota de 14 anos, chamada Faiza Guène, nascida na França, filha de imigrantes argelinos. Terminei o livro há dois dias e ele não sai da minha cabeça.

É um relato sincero e poderoso da França de hoje, da vida dos imigrantes nos subúrbios, de uma relação política complicadíssima e de uma gente tentando se encontrar num país estranho e estrangeiro. Esta é a parte marketeira, mas o que realmente me cativou foi a lucidez da narradora. Claro que lucidez de 14 anos, aquela toda conturbada e radical, e por isso mesmo lucidez. Deixo aqui a foto da guria. Hoje ela tem 20 anos e faz roteiros de curta-metragem. Faiza Guène, guardem esse nome!



Escrito por Índigo às 08h44
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Vida mambembe

Eu nunca tinha ganho dinheiro na vida. Nem 18 anos eu tinha. Aquele era meu primeiro trabalho e meu ar estava acabando. De dentro da cabeça do Mickey eu pensava que estava fazendo a coisa certa. Homens adultos vestem terno e se enfiam em escritórios. Mulheres calçam saltos e penteiam o cabelo. Eu vestia cabeção.

Os anos foram passando e meus empregos melhoraram, com algumas recaídas aqui e ali. Desde então nunca mais trabalhei em circo. Mas na quinta-feira passada, enquanto Samantha dava seus autógrafos no "Depois do Escorpião", num canto da livraria, Marcelo Nascimento, o gênio do mal da RedeTV, recepcionava suas estranhas criaturas. Eram cowboys, Barbies, contorcionistas, engolidores de espadas, elfos e leopardos.

Se Marcelo tivesse bigodes, seriam bem pretos e lustrosos, e a cada criatura que entrasse na livraria ele viraria a pontinha, orgulhoso.

Já não sou mais o Mickey. Antes eu vivia dentro de uma criação. Agora a criação sai de mim. Bem mais confortável.


Marcelo Nascimento com suas estranhas criaturas enquanto eu, muito contida, exibo minha nova criação literária



Escrito por Índigo às 13h00
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Tambor de Mina, boy

Através de leituras disso e daquilo descobri um negócio chamado Tambor de Mina. Não conhecia. Então fui pesquisar. Tem quem diga que Tambor de Mina é, no Maranhão, o que o candomblé é na Bahia. Outros dizem que não, pois no Tambor de Mina só as mulheres giram, além do mais, recebe-se caboclos, coisa que não acontece no candomblé. Hoje, perambulando pela Avenida Paulista, dei de cara com um Bumba Meu Boi todo sorridente. Segui o bicho e fui parar numa fila.

- Isso aqui é fila pra quê?
- Exposição sobre o Maranhão - explicou um menininho na minha frente, sem tirar os olhos do seu Gameboy.

Através do vidro vi uns tambores. Ali estava a resposta que eu procurava. Assim, no meio da Paulista! E grátis. Hoje aprendi um pouquinho mais sobre o ritual dos encantados, e também aprendi que agora as televisões andam. Aquilo não era um Gameboy, era uma mini TV! Muito compenetrado no seu jogo de futebol, o menininho caminhou, sem perceber, por tudo o que o Maranhão tem de mais misterioso.



Escrito por Índigo às 20h08
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Milhares de Perninhas

Desde 1997 existe um programa do governo chamado PNBE. É assim: o governo seleciona alguns livros que ele comprará das editoras e enviará para as bibliotecas das escolas da rede pública. Se o seu livro for selecionado você ganha uma bela grana, pois a compra é de milhares de livros. Há anos eu ouço falar dos escritores que tiveram seus livros selecionados pelo PNBE.

Quando isso acontece na vida de um escritor, ele passa a viver de literatura. Ele paga suas dívidas, dá festas e é recebido com cafezinho na sua editora. Escritores que tiveram livros selecionados pelo PNBE têm um brilho diferente nos olhos. Conheço uma escritora assim. Encontro com ela na rua, de vez em quando. Ela mora aqui perto de mim, e é verdade, ela sempre está feliz.

Pois hoje descobri que o meu "Perdendo Perninhas" foi selecionado para o PNBE 2006. E a sensação é a mesma de quando ganhei o prêmio do MEC. Aconteceu. Está lá no diário oficial e eu aqui, com minha gata dormindo no meu colo enquanto escrevo e tento acreditar que é verdade. Está lá no diário oficial e minha gata dormindo como se nada tivesse acontecido.



Escrito por Índigo às 17h24
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